Falecimento de Chatral Sangye Rinpoche

Falecimento de Chatral Sangye Rinpoche

Mensagem de Dzongsar Jamyang Khyentse sobre o falecimento de Chatral Rinpoche no passado dia 31 de Dezembro, em Pharping:

O falecimento de Chatral Sangye Rinpoche marca o fim de uma era. Num instante, perdemos uma sentinela que guardava zelosamente o Buddhadharma, em geral, o Vajrayana em particular, e especialmente o budismo tibetano e a linhagem Nyingma.

A palavra Chatral conota um iogui asceta que abandona tudo. Normalmente, os nomes são dados como etiquetas. Mas naquele que agora passou para paranirvana, o nome Chatral não era apenas um rótulo. Era o epíteto e personificação do que a palavra Chatral realmente significa.

Na sua longa vida de mais de 102 anos, foi um homem que fez imenso, desde associar-se a alguns dos maiores seres, se tornar mestre dos mestres, passando pelo ensino e até tornando-se o guru daquele que veio a encontrar o 14º Dalai Lama Tenzin Gyatso, conhecido como Yongzin Gyaltsab Radreng Rinpoche. No entanto, mal se podia vangloriar de ter um mosteiro, instituto ou centro de Dharma. Em torno dele, parafernália como tetos banhados a ouro ou tronos não são encontrados em lugar algum. Era um Chatral no verdadeiro sentido do termo.

Mas não se enganem: Muitos Lamas, tal como eu, que fazem muito barulho, apresentam imagens chocantes, e viajam para cada polegada e canto do mundo, quase nada alcançaram comparado a este homem que parece não ter feito nada, excepto evitar que sua almofada de meditação ficasse fria. E quando se manifestou em acção, gastou 99,99% do que tinha para resgatar vidas de animais. Assim, para seres ignorantes como nós, tentar expressar as grandes qualidades deste ser iluminado é como tentar medir a profundidade e a largura do céu.

Aquilo que posso expressar a partir do pouco que conheci dele é o seguinte: O Budadharma tem imensos desafios, incluindo os danos da imagem do Dharma feitos por todos os charlatães. Estes podem ser superados por aqueles que parecem fazer a coisa certa, que aparecem serenos, adequados e morais, e que nunca perturbam ninguém. Mas isso muitas vezes leva-nos a outro desafio que é mais difícil de superar. Porque alguém que faz as coisas correctamente, de forma adequada e moral, e suporta o fardo de não perturbar as pessoas, acaba por se tornar vítima do politicamente correcto e tornar-se hipócrita.

Na minha curta vida tenho visto muito poucos seres anti-hipócritas, e ele era um deles. Ele era directo, não havia negociação e, obviamente, nunca trocou uma única palavra de dharma por dinheiro. De forma repetida, recusou a curvar-se aos poderosos.

Fez estremecer muitos de nós, seres hipócritas. Só de saber que ele estava vivo e a respirar em algum lugar entre Siliguri e Pharping fazia abalar os nossos corações. Mesmo não tendo a oportunidade de o ver, especialmente no final de sua vida -  e eu inclusive tive recusada uma audiência 20 vezes ou mais – a sua mera presença nesta terra aniquilava a hipocrisia.

Para expressar a nossa homenagem, veneração e súplica, possamos nós, discípulos deste homem, manter a prática de libertação de seres vivos, tal como a liberação de peixes, e em especial durante este mês.

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